sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dona Ivete



Dona Ivete fala meio espanhol ,meio brasileiro. Eh assim: escreveu nao leu o pau comeu. Mulher da pele morena e olhar agucado. Ela eh repleta de palavras sem mesuras que cativam. Bondosa Dona Ivete. Na cozinha faz muitos cafes. Parece sempre sair forte o liquido preto que sai do coador . Entretanto, a mulher sempre adiciona agua quente para consertar.
Morou no Uruguai muito tempo. E em varios estados do Brasil. Experiencia de vida: Tem. A cada dia que a encontro na cozinha , ela me presenteia com uma nova historia. Ela habla sem parar. E eu que pensava que eu era de muito falar! Ela me diz, sem hesitar :
-Antes nao ia muito com tua cara. Mas, depois gostei de voce! Eh bom gente simples assim. Isso que te conto nao conto pra todo mundo. Com voce eh diferente. Me sinto a vontade com voce.
Macumba foi o plot daquela tarde.
-Sabe que de macumba nao duvido ,diz Ivete. Uma vez: Morava com meu marido no Rio de Janeiro e la a gente tinha uma casa. De quintal grande. Muitas plantas! Ai como eu gosto de plantas! Ja tive muitas casas. Tenho ate uma no Uruguai. Mas …Teve um dia que uma coisa de macumba aconteceu. Morava com meu marido e daquela vez fazia um tempo de muita chuva. Tanta chuva que ate gastei todas minhas calcinhas. Num dava pra lava. Tudo sujo mesmo. Ai, usei umas nova que eu tinha guardadado pra ir no medico. Eh minha filha, porque, pra ir no medico nao da pra ir de qualquer jeito. Pelo menos, eu nao gosto. (Ve-se, atraves da luz que ilumina sua blusa, que seu sutia eh de bolinhas verdes, alias muito bonito. Ela se cuida.)
Continua discursando sobre as calcinhas:
-Quando lavo as calcinha coloco tudo organizadinho no varal. Eh porque eu sou assim, gosto de tudo organizadinho , nao sei se eh defeito ou qualidade. Deve ser de familia, assim de criacao. Bem, eu coloquei as calcinha todas junta no varal daquela vez . E no outro dia, Bau-Bau. Tinha sumido a calcinha preta, a vermelha e uma beijinha. Achei que alguem tinha roubado. Mas, uma mulher me disse que aquilo era macumba. Ela disse que em tres dias as calcinhas iam comecar a aparecer. No primeiro dia, a vermelha embrulhada em papel preto, a preta em papel vermelho e a beijinha em papel dourado. Menina! Dito e feito! Nao sei como.
Assustei e perguntei :
-O que?! Em tres dias comecaram a aparecer as calcinhas na sua porta?
Ela continua:
-Sim! E a mulher me disse pra quando eu encontrasse as calcinha era pra eu colocar mel nelas , ferver e usar. Mas que nada! Coloquei fogo em tudo. Tive medo, ne? Imagina so. Mas dito e feito: separei do meu marido nao demorou nem tres meses. A gente pensa que eh o destino. Mas sabe-se la.
Ela faz ar de misterio e prossegue:
- Uma outra vez meu irmao era casado com uma puta. Puta mesmo, de eu ver ela dando pros caras no meio do mato. Coitado do meu irmao. E ai, a mulher disse que era macumba .Falou que a gente tinha que ir ate o cemiterio e perto da entrada , onde tem a cruz, a gente tinha que cavar ate achar um barbante enterrado. Vc acredita que ela tirou a medida do pau dele e cortou um barbante do mesmo tamanho e enterrou no cemiterio? Diz que quando o barbante sumisse e se dissolvesse na terra, nunca mais que ia ter jeito. A gente cavou e cavou. O coveiro veio ate reclamar. Mas, a gente continuou cavando e …nao eh que eu achei! Achei um pedaco de barbante, assim oh, (mostra um tamanho pequeno. ) A terra ja tinha comido um pedacao do barbante.
Ela olha com firmeza deixando o ambiente se encher de curiosidade e desespero.
O cheiro de café fresco esta em toda a cozinha. Ela lavando a louca da continuidade a fala :
-Tem cada coisa que ate D’us duvida. Pra mim trabalho pra amarrar homem eh coisa de mulher incopetente. Eu sou muito competente. Menina, nessa epoca dei uma facada no meu marido . Na virilha. Era pra ser nos bagos. Na verdade era para ser em qualquer lugar, de raiva que eu tava.Mas, ele segurou meu braco e eu fui caindo assim , indo pra baixo ate que eu derrubei a faca e peguei com a outra mao livre. Entao, dei uma facada nele, bem na virilha. Depois, levei ele para o hospital. Ele falou pro medico que tinha machucado no trabalho. Mas, eu disse pro medico,: “que nada fui eu mesma quem dei a facada nele”. O medico disse: “bem entao tem que fazer BO”. E o marido diz: “Nao , nao precisa de BO nao!” Ivete se exalta e diz que se for pra nao ter BO que ela como agressora o faria.
Dona Ivete prossegue:
-A moral da historia eh que fiquei casada 13 anos com um marido e depois conheci um Uruguaio muito bom e fiquei treze anos com ele. E no mesmo mes de outubro os dois casamento acabou.Eh tem coisa estranha que acontece na vida da gente. Qual eh o seu signo?
Eu respondi:
-Leao com ascendente em cancer. Nunca fiz o mapa. Mas,por algum motivo acredito em astrologia.
Ela se espanta que nunca fiz mapa astral:
-Precisa fazer seu mapa. Vai ver! Coisa de louco. Eu acredito nos Astros. Sabe eu nao gosto de estuda nao. Nunca estudei e nao me arrependo. Nao me arrependo de nada que eu fiz. Mas, se eu pudesse . Sabe o que eu ia ficar fazendo? Estudando os Astros, as estrelas do ceu! Assim de telescopio. Imagina que maravilha…
-
E eu, professora, pensei:Que coisa! Que dia! Tanto que aprender que eu tenho . E ela que nem faculdade, porem sabedoria tinha.
Dona Ivete da o conselho:
-Estudar eh na vida, menina.
Ela sorri. E me chama de muchacha. Eu gosto do jeito que ela olha. Firmeza e verdade. Ela, a mulher que lembra minha adorada tia. Que forca imensa. Uma mulher que parece uma india. Que nao se diz da igreja, porem trabalha na liga das senhoras catolicas. E reclama. Nao tem papas na lingua. E quer voltar para o Uruguai. La em outro pais sim, la ela tem amigos.
Gosto de gostar da quase mae, quase tia: Dona Ivete a mulher que conheci um dia.

Um comentário:

  1. SUDÁRIA EMÍLIA BERTOLINO15 de maio de 2009 18:30

    EU AMEIIIIIII... MARAVILHOSA PROSA...

    E O PIOR É QUE EU AMO ESSA MULHER...

    PARABÉNS KEL, VC É TUDO MESMO.

    KISSES SUDÁRIA EMÍLIA SUA FÃ

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