sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Prosa Livre


Kalachakra (tib. dus kyi 'khor lo / Dükyikhorlo), ou Roda do Tempo em sânscrito
"Se estivermos aptos a ver as energias do universo como realmente são, então as formas, cores e padrões se sugerem; Esse é o significado do Mahamudra, que significa "grande símbolo". Todo o mundo é um símbolo, não no sentido de um sinal representando outra coisa, mas no sentido de culminância das vívidas qualidades das coisas como elas são."
(Chögyam Trungpa, The Mith of Freedom and the Way of Meditation)
"A mandala representa a auto-identificação do microcosmo (a pessoa humana) com o macrocosmo que, para uma pessoa não-iluminada, possui a natureza do samsara; reciprocamente, ela se revela como a expressão perfeita da iluminação quando todas as diferenciações errôneas desaparecem no estado iluminado da não-dualidade. "
(David Snellgrove, Indo-Tibetan Buddhism)

Ás vezes importa a tristeza e o estado de feto. Será que ao dormir ficamos imunes ao medo? Pode ser que sonhar de olhos abertos seja dormir?Tanto e quanto no mundo importa e hoje só minha cria reluz no céu. Tanto vampiro solto em espaços públicos que sentir-se drenado por sorrisos hipócritas é comum. Que lastima.
Coisas simples da vida interessam: uma cerveja, um bom papo, ler um texto antigo acompanhado de outros ouvidos... Ah! Que prazer, trocar com o próximo amado o que há de mais fundo na janela da alma . Gosto do número dois, entretanto me interessa a solidão que tem o poder de nos aproximar do ínfimo do nosso ser. Longe das orgias é possível se alimentar de palavras, sensações e a firmeza de algum caminho reto. Está certo que luz é clareza. Clareza é saber o que deve- se fazer no próximo momento.Estive pensando sobre o que seria mostrar meu ser. Descobri que não tenho desejo de- monstrar nada. Quero apenas ser eu. Que me veja quem tiver olhos para ver. Sem botox estamos aí. Que veja quem estiver direcionado para o que há de pessoa na imagem.
Imagine a imagem de uma flor no espelho e alguém tentando pegá-la através do reflexo do cristal. Como sentir o cheiro da imagem da flor? Esse alguém não conseguiu alcançar e tocar a flor. Todavia, se esse alguém virasse de costas, teria uma surpresa: a flor estaria ali logo atrás de si mesmo. Só mudando o ponto de vista sentiria o cheiro da flor. A beleza perfumada estava logo ali tão perto e tão fora do campo de visão. A flor é real. A imagem da flor é imaginação. Aqui do lado dos riachos que correm livres entre as pedras vou em busca de olhar as coisas sem que a cor do pigmento dos meus olhos importe tanto.Já não espero telefonemas. Gosto de silêncio ao anoitecer. Palavras, ruidos e gente brotam de todos os lados. Me assusta por dentro o mundo externo. Preciso de paz. Hoje só música clássica.
Rego as palavras com olhos pelos quais vejo o mundo e o mundo me vê. Tem um colorido que me desperta para entender o arco íris de coração.Não farei ao acaso, por acaso, vou saber o por quê de cada ação que sai de minha espinha dorsal. Não é preciso mostrar é necessário ser. Que possamos viver como um ser em constante re-construção. O movimento da mandala poderia ser traduzido como a -vida.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O quê ? Letras?

"A condição humana" Magritte


O próprio Magritte escreveu: “Eu coloquei em frente de uma janela, vista do interior dum quarto, uma pintura representando exatamente a parte da paisagem oculta pela própria pintura. Portanto, a árvore representada na pintura escondia a árvore localizada por trás dela, fora do quarto. Ela existia para o espectador, desta forma, ao mesmo tempo dentro do quarto na pintura e fora do quarto na paisagem real. Que é como nós vemos o mundo: nós vê-mo-lo como existindo fora de nós próprios, mesmo que seja apenas uma sua representação mental o que nós sentimos dentro de nós”. (tradução minha duma citação feita na pág. 706 de Gödel, Escher, Bach, An eternal Golden Braid, de Douglas R. Hofstadter, citando Suzi Gablik (presumo que em Magritte (London, 1970), p.184), citando o próprio René Magritte)

O que seria eu sem letras?
Um espírito sem corpo.
Oco e tosco
Entretanto letras saiem por minhas tetas
Saiem por dedos, palavras e canetas
Abundantes caiem direto do coração
Ainda que exista o se e o não
Que importa que o amanhã seja feito de senão?
Acredito fervorosamente
Na força da letra
E do borrão
Que feito com espírito
Pensamento, imagem e coração
Ganha força na multidão
Que sejam transitórias, mas que jamais caiam em vão
Que não sejam linguagens de manipulação
Como as faladas por certos políticos á grande população
Letras aqui são :
Letra pintura, letra fotografia, letra poesia, letra ética
Letra cinema, letra música, letra cor, letra teatro, letra sinalética
Rimada ou só estética
Com conteúdo, imagens, sons e cheiros
Letras até como números
Dignidade e direito á livre escrita para toda a humanidade
Letras para socorrer da solidão
Amo as pausas e a ausência
Também as que são combinadas e faladas
Talvez você não
Agora falo de mim e não precisa ser de todo cidadão
O que sou sem letras?
Só assombração
Sem linguagem, nem fala
Sou um boi sem pensamento
Perdido no meio da confusão.

Carlos Penna Filho


Pintura de Portinari
"Os retirantes""

Carlos Penna Filho: eis um poeta nordestino que admiro. Um desatre de automóvel o mata em 27 de junho de 1960 aos 31 anos de idade. Jorge Amado lamentou. Paulo Fernando Craveiro um dos amigos de Carlos falou sobre o companheiro: "ele dividia seu tempo em duas partes: escrever poesias e fazer amigos. Duas artes" . Nascido no Recife o poeta pouco conhecido nos dias atuais foi um inovador na poesia brasileira: da temática, e sobretudo a linguagem, carregada de oralidade, essencialmente musical e de forte apelo visual. Ele nos dá a sensação que pinta com palavras. Alguns anos atrás ganhei um livro de um amigo Poeta , li e gostei. Agora reli e adorei. Bons os amigos que nos apresentão amigos imortais feitos de letras vivas.
Vejam esse poema:

A SOLIDÃO E SUA PORTA
Quanto mais nada resistir que valha
e a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar
(nem o torpor do sono que se espalha),

quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída
entrar no acaso e amar o transitório.
Carlos Penna Filho.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Amando pelas letras


Portinari "Mãos entrelaçadas"
Eles se amavam. Por cartas. Lá, entre a tinta e o papel, é que se encontravam. Se encontravam em potência, e desejavam em ato.Ana era letra redonda. Suspirava poesias numa caligrafia desenhada. Passeava os olhos entre a escrivaninha e a janela, como que a esperar. Não sabia bem o quê, se o carteiro ou o amado. Mas passeava os olhos, como que a esperar.Tomé era letra inclinada. Inclinada e comprida. Parecia querer chegar antes. Enquanto escrevia, era só mão e pena. Acentos e cedilhas eram alvo de volúpia, como um beijo inesperado. Não sabia bem quem lhe despertava a paixão, se o perfume da carta ou o odor da tinta. Mas devotava volúpia, como um beijo inesperado.Assim foram dias, meses. Ano e meio. E as cartas contavam o tempo. Com rigor e método. Uns dias, desejo; outros, canção. Uns dias, Ana era a um só tempo tanto rubor e quentura que sua mãe corria para a vila a chamar o médico. Outros dias, Tomé era tanto riso frouxo que seu pai o julgava amalucado. E as cartas contavam o tempo. Estações. Cartas quentes, frias, secas, encharcadas.Num dia, feriado nos correios, decidiram se encontrar. Seriam Tomé e Ana, Ana e Tomé. Seriam mais que abecedários amantes. E, para mútua surpresa, as próximas cartas denunciavam o desejo que ambos tiveram no mesmo dia. Feriado nos correios.Durante dois meses exatos, nem mais e nem menos, planejaram à exaustão. Tomé era texto em prosa, quase lógico. Cabia-lhe os detalhes, o local, o dia, a hora, e até mesmo as palavras. Ana era verso puro, alexandrino. Vaticinava os suspiros, as mãos dadas, olhos apaixonados, e o beijo. Sim, o beijo.No domingo de Pentecostes, manhã cedinho, Ana saiu de casa e Tomé chegou à estação. Foram em direção da Igreja. Seus corações, faces e sangue, vermelhos como os paramentos do ambão e do altar. Subiram à fila para a comunhão. Ana à frente, Tomé atrás. Comeram o corpo de Cristo e pensaram. Pensaram que aquilo era a celebração da saudade. Pensaram que a saudade só nasce da ausência. Comeram o corpo de Cristo e sentaram.Depois do Aleluia, saíram pela mesma porta. Ana viu, mas fez que não viu. Tomé fez que não viu, mas viu. O floricultor ensaiou uma saudação e Ana parou, aspirando até encher os pulmões de rosa. O jornaleiro gritou e Tomé parou, lendo as manchetes mais rápido do que poderia. Alguns minutos passados e alguns trocados a menos, Ana e Tomé, Tomé e Ana, voltaram para suas casas.Já na terça-feira, houve trabalho para o correio. Desta vez, Ana é quem foi volúpia, letra nua e ardente. Desta vez, foi Tomé a poesia, letra bela e lírica. E, assim, viveram suas vidas, em íntima comunhão. Fizeram de suas escrivaninhas verdadeiros altares eucarísticos. Celebraram a ausência e a saudade. E se amaram perdidamente entre os lençóis de suas cartas. Pois era assim que se amavam.
Migalheiro

Surrealismo pela adorada Anais Nin


Dali
Essa imagem eu vi no museu do Dali em Figueroa. Acredita que é um quadro qiue se vê subindo uma escada e olhando em um buraquinho? A imagem é uma sala de estar... Impressionante
"Surrealismo foi tomado da obra de Apollinaire, e significava uma "arte que ultrapassava as aparências, desobrigada da fidelidade para com o real". Se desenvolveu tanto na poesia quanto nas artes gráficas, não tendo nenhuma preocupação com a estética ou a moral. Buscava uma realidade superior em formas até então negligenciadas: o sonho, as idéias e demais manifestações de atividade mental. Para isso, se baseou na obra de Froid e Jung e seus estudos sobre a psicanálise, o inconsciente e a loucura. No entanto, não queria mudar o mundo, e sim a "mudar vida". Não era preciso destruir as artes anteriores, a meta era adentrar no pensamento e subconsciente humano deixando-o transparecer. E isso se deu de duas maneiras: com o automatismo (a fixação de imagens oníricas e do subconsciente de maneira natural, representada por uma arte mais abstrata) e com o surrealismo simbólico (que já tenta objetivar seu mundo interno através de imagens inteligíveis)". Marília Yamashita

Me dou o direito de ser fã de Anais Nin

Surrealismo


A vida de todos os dias não me interessa. Procuro apenas os momentos elevados. Estou de acordo com os surrealistas quanto à procura do maravilhoso.
Quero ser uma escritora que lembre aos outros que estes momentos existem. Quero provar que existe um espaço infinito, um sentido infinito para as coisas, uma dimensão infinita.
Mas não estou naquilo que se pode chamar de estado de graça. Tenho dias de iluminação e febre. Há dias em que a música para na minha cabeça. Então remendo peúgas, limpo árvores, apanho frutos, dou brilho ao mobiliário, mas enquanto faço isto sinto que não vivo.
- Anais Nin

sábado, 8 de agosto de 2009

Puzze "Brincando de caça palavras de amor"

O beijo de Rodin - Museu Paris



Em uma tarde cor de rosa há um sopro azul no ar
Meu céu voa até Zeus
Um deus nordestino arretadinho
Todo e inteirinho na porta do caminho
Ao lhe ver sou toda carinho
Ri eterno Zeus bronzeado, ri e vêm pro meu ninho
Convido-te:
Invada minhas terras
Salva-me da ausência e escuta :
Irra! Tem um fogo que só a paixão
Oh! plenitude que invade carne, alma e coração
Nessa terra pra lá de Pasárgada
Se sente sem razão
Têm um frio no estômago
Uma tremedeira que só amor de cão
Ah! Nessa terra não se ama em vão
Mandem os bombeiros do Olímpo acalmarem essa paixão
O sentimento se encandece vestido de carmim
Amanhã? Não sei de você ou de mim
Hoje só saudade que invade e fim.

Isadora Duncan , uma paixão






Quando morei em NY tive a oportunidade de estudar e praticar a dança de Isadora Duncan. Que lindas as coreográficas que são pura poesia! Os gestos de Isadora eram sempre como obras poéticas. Sou fã dessa mulher inesquecível.
Depois de algum tempo de aulas da técnica Isadora Duncan senti extremo desejo de falar sobre ela: a vida e a dança. Houve uma idéia de montar um espetáculo no Brasil. A idéia só se concretizou em pesquisa e um ensaio fotográfico.
As fotos acima são parte desse ensaio feito por Sérgio Audi. A parceira Paula Hernandes neste dia dançou comigo belas músicas clássicas em homenagem a deusa da dança Isadora Duncan.