
domingo, 19 de julho de 2009
A mulher no ano 2000 e tantos. Até quando?

Maravilhas do Zen Budismo "De quem é o presente?"

As montanhas . Arte em preto e branco Sumiê é uma técnica de pintura que retrata a forma e a essência dos objetos .
-ONDE VOCÊ ESTÁ?
-Aqui.-
QUE HORAS SÃO?
-Agora.
-QUEM É VOCÊ?
-Esse momento!
Siddartha
De Quem é o Presente?
Perto de Tóquio vivia um grande samurai idoso que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direcção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se. Desapontados pelo fato de que o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: - Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós? - Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?- A quem tentou entregá-lo - respondeu um dos discípulos. - O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos - disse o mestre - Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir...
Do pessoal ao coletivo

O que torna coletivo um fato pessoal?
Quando a estória passa a ser de quem ouve e não só de quem conta?
Há estórias pessoais que muitos já passaram por ela, cada um na sua particularidade. O primeiro dia de aula na vida de uma criança, por exemplo.
São tantas as estórias que se repetem: violência sexual, amor, abandono, angústia existencial. Cada indivíduo é particular com sua estória , entretanto a beleza esta em vê-la refletida em um coletivo. Queremos ver nossa essência projetada no que vemos. Ao menos, queremos nos ver de algum modo na obra de arte. Claro, que pode e deve não ser óbvio. Passear no jardim de Rodin me trouxe a essência única do artista e de como ele via o mundo em um beijo esculpido, em um inferno ou um pensador no meio da grama.
Como transformar em belo o que vem de dentro, o dia-a-dia, o feio? Qual é a metamorfose da inquietação? Como ver a beleza do quadro "Três de maio de 1808" de Goya ou da "Guernica" pintada por Picasso?
O que o feio tem de belo? Que beleza viver intensamente a sequência de fatos que nunca são ao acaso. Deixar a obra de arte falar: ouvi-la.
Quando os fatos diários passam desapercebidos podemos notar que agimos como se falássemos sem ouvir. Um usuário da saúde mental me disse um dia: “ eu não entendo, eu falo e ouço o que você fala, mas eu não entendo.”
Quando não conseguimos nos comunicar com o que ouvimos, vemos, tocamos nos alienamos. Queremos e necessitamos de comunicação ainda que dentro de nossa solidão.
O ser humano é um ser social. Ainda que estejamos fragmentados pela arrogância, pelo desrespeito, pela falta de amor não será possível ser forever alone. Aprendemos na relação com o outro e o mundo. Tudo está em relação á: somos resultantes das equações de símbolos diversos que dialogam entre si.
Disciplinando nossos hábitos

Amanhecer na luz do quase pode ajudar a entender o problema da verdade absoluta. Certo não há, mas errar sem escolher, nada acertar ou não aprender com o próprio erro não deveria ocorrer. Como diria o ditado popular: "Errar é humano, mas persistir no erro é burrice."Ainda estamos esmagados na caverna sem ver a luz vivemos de sombras. O simples que não está entendido fica difícil de assimilar.
Que simples se nós pudéssemos fazer uso do que temos e ser quem somos em essência. Que simples se pudéssemos! Mas, ao contrário usamos máscaras escondendo quem somos e compramos mais e mais e não usamos. Quem não tem aquela coisinha bonitinha que nunca saiu da gaveta ou aquele livro que nunca passou da página cinco? Tem coisas que até esquecemos que temos. Entretanto felizes estamos, pois afinal “temos”. Ter é o êxtase do mundo contemporâneo. Queremos ter um namorado, uma esposa, um carro, uma casa, um filho. Todos proprietários. Donos de que? De quem? Quem somos não importa? Ser um ser social supera ter em todos os âmbitos.
Na ânsia de consumo não podemos estabilizar uma relação amorosa única, afinal há tanta oferta no mercado. Tão pouco podemos ler um único livro por vez, temos que entender de tantos assuntos superficialmente que só temos tempo para o superficial e para a nossa “especialidade” .
Que mundo é esse em que não se sabe saborear a comida e só engoli-la é possível? Engolimos comida como engolimos informações, idéias e ideologias. O que faz do homem um ser tão individualista e tão normal que o raciocínio coletivo possa ser excluído das necessidades básicas do ser humano? A humanidade paga pela sua própria ignorância. Uma massa ignorante é perigosa. Qual é a responsabilidade de cada um nesse bolo chamado mundo?
Filhos são para o mundo, os cachorros também. Ainda que cuidemos de nossos filhos, de nossa família, de nossos amigos e amores não os possuímos. Amores bons, por exemplo, são aqueles que ficam pra sempre por livre e espontânea necessidade. Ações fundamentais são aquelas internalizadas que estão arraigadas em nossas víceras. A repetição não-mecânica de ações que praticamos no dia a dia forma nossos hábitos.
A prática de nossos hábitos forma nossa personalidade. Que tal começarmos colocar em prática a virtude? Tarefas práticas possíveis e imagináveis:
Reciclar o lixo
Costurar uma roupa ao invés de comprar outra
Fazer reunião entre amigos ao invés de só ir em baladas
Comprar só aquilo que consome e necessita
Procurar não deixar comida no prato
Não ser levado pela impulsividade excessiva
Procurar ser antes de ter
Amar quem está ao nosso lado no dia-a-dia
Cativar amigos
Abraçar o que sofre
Dar uma moeda, um café , o que for possível se outro está necessitado
Concentrar-se em todos pequenos momentos
Lutar pelos direitos humanos
...
A lista seria imensa e poderia ser preenchida por cada um que a lesse. Importante: a lista tem que ter ética humanista e solidariedade implícitas em cada um de seus itens.
Esta lista deve ser feita de hábitos que temos ou almejamos. Só os bons hábitos mostram uma pessoa virtuosa. Um ato isolado não mostra quem está a nossa frente. Uma só ação não faz revolução. Todavia é um começo. Que tal começar sua lista hoje mesmo?
domingo, 12 de julho de 2009
A exposicao de Sophie Calle: “cuide de voce”

"Recebi uma carta de rompimento
E não soube respondê-la.
Era como se ela nao me fosse destinada.
Ela terminava com as seguintes palavras: “cuide de você”.
Levei essa recomendacao ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
Para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisá –la, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Egotá –la
Entende –la no meu lugar. Responder por mim.
Era uma maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim” Sophie Calle
Quem nunca sentiu dor de amor? Há uma identificação, em geral, dos visitantes com a obra. A pessoas transitam pela exposição com um caderno de cartas nas mãos, vêem fotos, vídeos; transformacões, representacoes e interpretacões de uma carta de rompimento amoroso enviada por email.
Muito divertida a terapeuta familiar interpretando a carta: ela que propõe uma conversa com Sophie, uma cadeira vazia com uma carta "sentada"representando o ausente e a terapeuta. Fantástico como todos podemos nos apropriar de um fato específico e sentimental de modo que este vire algo coletivo e nos identifiquemos com o fato: uma criminalista, uma professora de primário, uma escritora, uma juíza, uma diplomata, uma advogada, (etc...) lêem a mesma carta.
Uma das respostas veio em forma de ficção, muito interessante, a escritora de estórias infantis cria uma metáfora do homem com o diabo que o acompanha em forma de ganso. Ele quer que a rainha se apaixone por ele a todo custo. Pede que o diabo realize a façanha. Este gosta da brincadeira e faz com que a rainha se apaixone pelo rapaz. Mas, ao ver a rainha apaixonada o rapaz não se contenta e acha que pode ser abandonado: precisa de uma prova de amor, e pede o braço direito da rainha. A rainha que o ama muito arranca seu braco direito. Ao ver tamanha coragem ele ainda não se dá por satisfeito, continua desconfiando do amor da donzela, e pede que ela arranque o olho. A rainha apaixonada obedece. Ao ver a rainha multilada o rapaz volta a sã consciência. Vê a mulher multilada e não a quer mais. A mulher explica que foi ele quem pediu isso em prova de seu amor. Ele diz que prefere voltar a ficar com suas outras “amigas” e abandona a fiel rainha. A rainha fica muito triste e deprimida. Então, o diabo aparece para ela e devolve seu braço e olho. Ela organiza um grupo de mulheres e todas marcham para a casa do fulano e essas multilam o rapaz. Bem, está é uma síntese da síntese. Muito melhor a estória completa.
A imagem assim como as palavras podem ser polissêmicas. Um cristal de varios lados é cada ser humano. Uma surpreza cada resposta, cada análise específica. Como cada um vê e interpreta o mundo? E uma carta? o que há de coletivo na estória do um?
Para terminar, vou citar a resposta da adolescente: ele se acha!
Vale conferir.
domingo, 5 de julho de 2009
Monólogo de Ana

A desitência é uma revelacao” clarice lispector
Uma estoria de amor

Magnólia era menina bondosa vinda de uma família do interior. Ela estava na cidade grande há muito tempo, logo já era quase uma pomba urbana. Não se acostumava com a superficialidade da multidão enlouquecida da metrópole: pessoas que bebem demais, que comem demais, que trepam demais, que fazem muito de tudo e sempre rapido. Ela queria o seu vazio interno. Entretanto, algo intrigante ocorria: não conseguia a não ação. Quero dizer, não a conseguia ao lado do João.
Será que o amor era doença de Magnólia? Cheia de vida e criatividade fazia uso do Prozac para não ter intensidade demais. Aumentava a dose e aumentava e nada de parar de chorar. Dor profunda de alma nao se cura com remédio. Terapia não adianta nada antes de seis meses. Entretanto, a ingênua Magnólia poderia jurar que estava curada pelo amor que sentia pelo João. Um amor sem fim e sem começo. A garota amava com uma intensidade que só funcionaria no teatro ou no cinema. Na vida intensidade demais atrapalha, como todos já deveriam saber.
Tempos se passaram e a menina ainda conservava o amor pelo homem que não chegava. Aliás, Joao estivera ali por inteiro em algum momento? Era uma especie de ritual que ela vivia diariamente: ela sentava-se na praça e trazia consigo uma marmita quente e saborosa. E esperava João sentada no banco público em frente a sua casa: um dia veria o seu amado e o alimentaria.
Ele nao veio ou ela não o viu. Outros frequentadores da praça vieram com fome da marmita, do amor de Magnólia. Ela preferia jogar a comida para as pombas que entregá-la a outro! A menina era de uma fidelidade canina.
Negada, dia apos dia, ela se fortalecia. Já não chorava e até sorria. Não esperava João. Algo interior com imagem de pra sempre, comecava a ser mudado dentro de Magnólia. Argila interna moldada pelos dias era a pessoa da rapariga no presente momento da estória. Todavia algo se prolongava e se repetia: na praca como cadela vira lata, tremendo de amor, esperava seu dono: JoÃo.
Essa merda de remédio não faz efeito ?- pensava Magnólia perdida em sua avalanche de emoções. Ela não sabia se chorava, se ria, se gritava, se ouvia ou se falava. O que precisava Magnólia era ficar parada. Ela sabia viver na não ação, mas nÃo perto de JoÃo. Com ele era pernas pelas mÃos. Era paixÃo nÃo descártavel. Era amor incurável. Magnólia menina tão crescida, quando via JoÃo, era menina de cinco anos de idade . Tudo bem infantil , ingênuo sentimento sem proporçÕes. JoÃo silencioso olhava assustado o show amoroso de Magnólia. Ele pensava em outras coisas, em muitas coisas que nada tinham com Magnólia. Aliás, ele nem iria na praça pública aquele sábado, foi só um acaso. Ele só pensava em ir embora.
Ela se aproximou de JoÃo e sem ouvi-lo beijou sua boca que a rejeitava. Sentiu o cheiro da realidade e dopada de verdade foi afastada pelas mãos de João. O amor era incurável, mas a vida continuava. Era preciso saber que não tem explicação essas coisas de coração. João se foi decepcionado e ate um pouco irritado pela invasão amorosa de Magnólia. E ela ficou parada no banco público, estagnada em intervalo amoroso. Chorou como nunca, tirou uma parte de seu coração e enterrou embaixo da árvore em frente ao banco . Enterrou um sangue vermelho dentro da terra marrom e lá tempos depois brotou uma flor. O amor de Magnólia por João transcendeu no universo: de sangue a flor. Magnólia operou a si mesma . Doeu muito por dentro, todavia o amor deu bom cheiro e beleza a praça pública, em frente a casa de JoÃo. Se pudessemos perguntariamos a Proust: o amor nÃo é operavel de fato?